8.11.05

Hidrino

Claro, depois da fusão a frio está todo mundo desconfiado, mas não custa mencionar a mais recente esperança energética do momento. Randell Mills, médico por Harvard e engenheiro elétrico pelo MIT, e seus colaboradores têm obtido um estranho excesso de energia em suas experiências envolvendo um novo tipo de misturas de gases ionizados, chamadas por eles de plasmas de transferência ressonante. Conseguem 50% a mais na produção de calor que os métodos tradicionais. Segundo matéria no Guardian, um quilowatt hora gerado com esta técnica custaria 1.2 centavos de dólar, enquanto a mesma energia custa 5 e 6 centavos quando se utiliza carvão e energia nuclear, respectivamente. Trata-se de esperar para ver se outros grupos reproduzem os resultados do grupo de Mills.

Porém, o que tem causado mais polêmica entre os físicos é a teoria que Mills bolou para explicar o fenômeno, chamada Mecânica Quântica Clássica (CQM, da sigla em inglês). Como nas experiências é verificado um estranho alargamento das linhas espectrais do hidrogênio, Mills imaginou que o excesso de energia poderia advir de um estado mais estável do átomo de hidrogênio, batizando este pretenso novo estado de hidrino (hydrino). Assim, quando o hidrogênio em sua forma mais comum decaísse para o hidrino, energia seria liberada.

O probleminha aqui é que isso vai contra 80 anos de mecânica quântica, pois esta prediz claramente um estado fundamental do hidrogênio com energia de ligação igual a 13.8 eV, sendo impossível a existência de órbitas mais estáveis. Dois físicos teóricos já começaram a levar mais a sério esta história de hidrino e fizeram suas contas. Andreas Rathke, da Agência Espacial Européia, faz uma crítica bastante forte à CQM, afirmando que a teoria é inconsistente e, mais importante, nem prevê a existência do hidrino. Jan Naudts, da Universidade da Antuérpia, está tentando (physics/0507193) encontrar o hidrino num conjunto extra de soluções relativísticas da mecânica quântica (equação de Dirac), soluções estas até agora desprezadas por serem não-físicas (não eram quadraticamente integráveis).

É muito importante separar o trabalho experimental de Mills de sua nova teoria. Vários grupos estão tentando reproduzir seus resultados experimentais (publicados em jornais de muita reputação, como o Journal of Applied Physics), como sempre é feito quando um fenômeno novo é descoberto. Poderão ou não corroborar o trabalho de Mills.
No entanto, ele ter rapidamente lançado uma teoria tão ousada para explicar o suposto fenômeno foi extremamente precipitado. 99% dos físicos acharão que você é um picareta se afirma que a mecânica quântica está errada. E logo no átomo de hidrogênio, uma das primeiras arenas da quântica. Ele teria feito melhor guardando pra si suas idéias sobre CQM (que aliás aplica até em teorias de unificação..tsc,tsc,tsc what a crackpot!). Para ser justo, é preciso ainda dizer que ao menos a CQM é uma teoria científica, no sentido de que é falseável, como seu próprio crítico Rathke observou.

No estágio atual das pesquisas a coisa mais sensata a fazer é se certificar de que os procedimentos científicos, como falseabilidade, reprodutibilidade e avaliação por pares, estão sendo seguidos. Se estão, mais cedo ou mais tarde qualquer erro ou enganação fatalmente aparecerá.