11.11.05

Gell-Mann versus Feynman (e Susskind no meio)


Estive lendo a entrevista que Leonard Susskind (foto ao lado) concedeu ao site Edge em 2003, onde conta sobre sua participação no início da teoria de cordas. É cheia de episódios hilários e ilustrativos.

Por exemplo, ele descreve seu primeiro encontro com Murray Gell-Mann, quando tenta lhe falar sobre sua teoria de que os hádrons se comportavam como tiras elásticas (rubber bands, que depois viriam a ser chamadas de cordas). Gell-Mann, já famoso, havia dado uma palestra numa grande conferência em que Susskind também estava presente. De volta ao hotel eles pegaram o mesmo elevador, o qual sofreu uma pane e parou. Imagine você e um Prêmio Nobel trancados num elevador e ele te perguntando: "Em que você está trabalhando?". Que pressão! Susskind falou sobre sua teoria de tiras elásticas e Gell-Mann começou a rir descontroladamente. Nightmare scenario, não? :-) Para tentar deixar o clima menos tenso e, inadvertidamente, forçar alguma intimidade, Susskind pergunta: "E em que você está trabalhando, Murray?". A resposta: "Você não ouviu minha palestra?". Por sorte, o elevador começou a subir.

Alguns anos mais tarde eles se reencontram em outra conferência. Susskind, no meio de uma conversa animada com colegas, é interrompido bruscamente por Gell-Mann: "Eu queria me desculpar por ter rido de você aquele dia no elevador. O que você está fazendo é a grande coisa do momento. Na minha palestra vou falar apenas disso. Temos que sentar para você me explicar direitinho!". Disparou isso e foi embora. Susskind diz que ficou nas nuvens e passou os próximos dias atrás de Gell-Mann, perguntando se ele estava livre pra conversar. Em geral a resposta era: "Não, agora eu tenho que falar com alguém importante" :)) A fama de Gell-Mann não é à toa.

Os dois finalmente se sentaram e Gell-Mann pediu para Susskind explicar tudo em termos de teoria quântica de campos. Susskind, tão ingênuo, disse "ok, vou explicar em termos de pártons".

O problema é que este termo fora inventado pelo arqui-rival de Gell-Mann, Richard Feynman. Além disso, párton é um frankestein linguístico, meio latina, meio grega, um crime hediondo para um amante de idiomas como Gell-Mann. (A propósito, quem quiser saber como se pronuncia Zwiebach, o autor do impressionante A First Course in String Theory , é só assistir ao vídeo da palestra do Gell-Mann na SidneyFest. Adianto: é muito difícil.) Voltando aos pártons: Gell-Mann ficou fazendo perguntas sobre o que seria isso, quais suas propriedades, etc. Quando Susskind disse que eles eram descritos pelo grupo SU(3) Gell-Mann exclamou: "Ah, você quer dizer quarks!". Egos...

Depois dessa enrolação Susskind teve apenas 1 minuto para explicar suas tiras elásticas, mas foi o suficiente para Gell-Mann entender e citá-lo a todo momento em sua palestra. Ele colocou Susskind no mapa; do seu jeito arrogante, mas colocou.

Esta competição entre Gell-mann e Feynman, ambos trabalhando no Caltech, é legendária e pode-se ter uma boa idéia dela no livro "O Arco-íris de Feynman", de Leonard Mlodinow. As pessoas, inclusive futuros Prêmios Nobel, tinham medo de apresentar seminários no Caltech, pois os dois competiam para ver quem fazia a pergunta mais crucial. Penso que esta competição é em geral positiva: quando se tem alguém com quem concorrer as pessoas ficam estimuladas, trabalham mais. Dentro dos limites da ética e do respeito, é muito saudável. Mas existem os extremos, claro: alguns físicos adotam uma posição arrogante, para despertar antipatia em seus pares e com isso conseguir adversários que os estimulem com a concorrência. Aparentemente, eles criam um personagem que os ajuda a trabalhar mais. Como se a beleza da Física já não bastasse.

Mas cada um, cada um.

2 Comments:

At 11/11/05 21:33, Anonymous Alysson Ferrari said...

Belo post, André. O livro do Mlodinow que você citou realmente descreve muito bem o espírito da "briga" Feynman vs. Gell-Mann, mostrando bem a diferença de caráter entre os dois. O Guell-Mann parecia não deixar de querer mostrar o quão bom era, mesmo que destroçando o ego dos pobres mortais que estivessem ao seu redor. Agora, fascinante o papel que ele teve no início da teoria das cordas, que o livro descreve, e que não sei se cito aqui para não tirar a graça de ler o livro, eh eh...

 
At 11/11/05 23:14, Blogger Luis Brudna said...

Acabei de ler esse livro hoje!
É muito divertido. Sou um admirador do Feynman. Gostei muito do "Deve ser brincadeira Sr Feynman". :-)

( http://www.gluon.com.br/blog/ )

 

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